Casamento, união e divórcio — Suíça

União de facto e vida em comum. Desde 1 de julho de 2022 já não se celebram parcerias registadas, e o concubinato — a vida em comum sem casamento — não é regulado pela lei federal: não existe na Suíça nada de comparável à união de facto portuguesa. Sem casamento, só os contratos escritos, o testamento e a designação na caixa de pensões protegem o companheiro, e o imposto cantonal sobre as sucessões pode ser muito pesado.

Ilustração: Casamento, união e divórcio
Mapa de localização — Suíça
Suíça. Mapa de localização de contornos simplificados — dados Natural Earth, domínio público.

Casamento civil

Na Suíça casa-se a partir dos 18 anos, sem dispensas, e desde 1 de julho de 2022 casais de qualquer sexo; depois de um procedimento preparatório no estado civil, a cerimónia é civil e, para um português, os documentos levam apostila e o casamento é transcrito em Portugal.

Todos os pormenores: Casamento civil

União de facto e vida em comum

A lei federal sobre a parceria registada (partenariat enregistré / eingetragene Partnerschaft), em vigor desde 2007 para os casais do mesmo sexo, foi fechada a novos registos a 1 de julho de 2022, com a entrada em vigor do casamento para todos. As existentes mantêm-se ou convertem-se em casamento por declaração conjunta. O concubinato (concubinage / Konkubinat), de qualquer sexo, nunca foi regulado pelo Código Civil: não há obrigação de alimentos, nem direito sucessório sem testamento, nem pensão de viuvez da AVS (AHV, o 1.º pilar), nem proteção legal da habitação comum. Genebra e Neuchâtel têm uma parceria cantonal (partenariat cantonal), com efeitos limitados às matérias cantonais. Na previdência profissional (2.º pilar), tudo depende do regulamento da caixa de pensões: algumas preveem prestações para o companheiro designado por escrito, outras não. A revisão do direito sucessório em vigor desde 1 de janeiro de 2023 reduziu as legítimas: com filhos, pode deixar-se ao companheiro até metade da herança, contra um quarto antes. O direito suíço desconhece a união de facto portuguesa (Lei 7/2001), que após dois anos de vida em comum protege a casa de morada de família e dá acesso à pensão de sobrevivência, e também desconhece a união estável brasileira.

Os pontos-chave

Novas parcerias registadasImpossíveis desde 1 de julho de 2022
ConversãoEm casamento, por declaração conjunta no serviço do estado civil
ConcubinatoSem regulação legal, sem obrigação de alimentos, sem direito sucessório
Imposto sobre as sucessõesCantonal; entre concubinos por vezes acima de 40 % (Ticino até 41 %)
AVS e 2.º pilarNenhuma pensão de viuvez; as caixas de pensões exigem uma designação expressa
HabitaçãoNenhuma proteção legal da habitação comum
Revisão sucessória de 2023Quota disponível maior, que permite proteger melhor o companheiro
ResidênciaO concubinato não dá direito de residência ao companheiro estrangeiro, salvo relação estável reconhecida caso a caso
Parceria cantonalGenebra e Neuchâtel, com efeitos limitados ao direito cantonal
Contrato de concubinatoRecomendado, sobretudo em caso de habitação comprada em conjunto

Na prática

  • Redigir um contrato de concubinato (contrat de concubinage / Konkubinatsvertrag): contribuições, propriedade dos bens, destino da habitação em caso de rutura ou de morte.
  • Fazer testamento, aproveitando a quota disponível alargada desde 2023: é o único meio de o companheiro herdar.
  • Designar o companheiro por escrito na caixa de pensões, quando o regulamento o permite — a designação nunca é automática —, e verificar o pilar 3a e os seguros de vida.
  • Estabelecer um mandato para caso de incapacidade (mandat pour cause d'inaptitude / Vorsorgeauftrag) e diretivas antecipadas (directives anticipées / Patientenverfügung): sem eles, o companheiro não tem direito de informação nem de decisão no hospital.
  • Em caso de casa comprada em conjunto, fixar as quotas de cada um no registo predial (registre foncier / Grundbuch).
  • O companheiro brasileiro ou cabo-verdiano de um residente não obtém autorização de residência pelo simples concubinato: o casamento é a via normal; fora dele, só um pedido de caso de rigor, com provas de uma relação duradoura.
  • Quem tenha carreira contributiva em Portugal deve consultar a Segurança Social portuguesa, cuja pensão de sobrevivência reconhece, com prova, o unido de facto de mais de dois anos; a AVS suíça não o faz.
  • Para bens situados em Portugal, como uma casa na terra, pedir conselho a um notário português: o companheiro não é herdeiro legal em nenhum dos dois países.

Custos e cobertura

Contrato de concubinato e testamento no notário: de algumas centenas a alguns milhares de francos, muito menos do que custaria um litígio. O testamento hológrafo é gratuito; o mandato para caso de incapacidade e as diretivas antecipadas podem, em parte, fazer-se à mão e sem custos.

Mudanças recentes

Depois da introdução do casamento para todos, a parceria registada é um modelo em extinção, e a revisão sucessória de 2023 alargou muito a margem para proteger um concubino. Um estatuto federal do concubinato, uma espécie de PACS suíço, é discutido periodicamente no Parlamento, sem resultado até agora.

A quem recorrer

  • Notários ou oficiais públicos cantonais (Urkundspersonen) — contrato de concubinato, testamento.
  • Caixa de pensões do empregador — designação do beneficiário.
  • Consultas jurídicas cantonais (permanences juridiques / Rechtsauskunftsstellen).
  • Direitos ligados à união de facto portuguesa: Segurança Social portuguesa e consulado de Portugal.

Convém saber

É na Suíça que a falta de documentos escritos custa mais caro a um casal não casado: o companheiro sobrevivo pode ficar sem casa e sem pensão, e pagar, sobre o pouco que recebe, a taxa mais alta do imposto sucessório. Antes de favorecer o companheiro por testamento, verifique a carga no seu cantão — em Zurique até 36 % para as pessoas não aparentadas, em Genebra até 54 %. E não conte com a união de facto: os anos de vida em comum, que em Portugal dariam direito à casa e à pensão de sobrevivência, não produzem na Suíça nenhum efeito automático.

Fontes

O artigo geral: União de facto e vida em comum

Casamento entre pessoas do mesmo sexo

O casamento está aberto a todos os casais desde 1 de julho de 2022, depois de a reforma ter sido aceite em votação popular a 26 de setembro de 2021 por 64,1 % dos votantes. Desde então, os casais de mulheres casadas têm acesso à doação de esperma num centro suíço autorizado, e a mulher da mãe é reconhecida como mãe desde o nascimento (artigo 255a do CC). O casamento entre pessoas do mesmo sexo tem os mesmos efeitos que o outro, incluindo a adoção conjunta e a naturalização facilitada do cônjuge estrangeiro, antes excluída para as parcerias registadas. Já não se celebram parcerias registadas; as existentes continuam válidas ou convertem-se em casamento por declaração no serviço do estado civil. A doação de ovócitos e a gestação de substituição continuam proibidas para todos, e a filiação de uma criança nascida de gestação de substituição no estrangeiro só é reconhecida com prudência — em regra em relação ao progenitor biológico, com adoção pelo outro.

Os pontos-chave

CasamentoAberto desde 1 de julho de 2022
Votação26 de setembro de 2021, aceite por 64,1 % dos votantes
Parceria registadaNenhuma nova; conversão em casamento possível
AdoçãoConjunta desde a abertura; adoção do filho do cônjuge desde 2018
Doação de espermaAcessível aos casais de mulheres casadas, num centro suíço autorizado
FiliaçãoAs duas mães desde o nascimento em caso de doação regulamentada
Gestação de substituiçãoProibida; parentalidade estabelecida no estrangeiro reconhecida com prudência
Norma penalDiscriminação em razão da orientação sexual punível desde 2020 (artigo 261 bis do Código Penal)
Em PortugalCasamento igualitário desde 2010; dupla maternidade admitida em caso de procriação medicamente assistida
Em Cabo VerdeCasamento reservado aos casais de sexo diferente

Na prática

  • A conversão de uma parceria registada em casamento faz-se no serviço do estado civil, por um emolumento modesto; não é obrigatória, e a data da parceria é em princípio conservada.
  • Só a doação de esperma feita num centro suíço autorizado dá a filiação automática às duas mães: uma doação privada ou feita no estrangeiro — mesmo em Portugal — obriga a segunda mãe a adotar.
  • O cônjuge português faz transcrever o casamento no consulado de Portugal como qualquer outro; o nascimento de uma criança de duas mães casadas pode, em princípio, ser transcrito com as duas mães, já que a lei portuguesa admite a dupla maternidade em caso de procriação medicamente assistida — confirme no consulado antes de pedir a transcrição.
  • Um casamento suíço é reconhecido em Portugal e no Brasil (casamento igualitário desde 2013) e, para a livre circulação, na União Europeia; noutros países, verificar antes de qualquer instalação duradoura.
  • Os casais não casados continuam sem estatuto: testamento e mandato para caso de incapacidade são indispensáveis.

Custos e cobertura

O procedimento preparatório e a celebração custam, consoante o cantão, 300 a 600 francos; a conversão de uma parceria é claramente mais barata. A doação de esperma não é coberta pelo seguro de base (assurance de base / Grundversicherung).

Mudanças recentes

Desde julho de 2022, os casais de mulheres casadas têm acesso à doação de esperma e as duas mães são inscritas desde o nascimento no registo do estado civil — a principal novidade prática da reforma.

A quem recorrer

  • Serviço do estado civil do domicílio — procedimento preparatório e conversão.
  • Centros de procriação medicamente assistida autorizados.
  • Pink Cross e Organização Suíça das Lésbicas (LOS); consultas jurídicas das organizações em caso de discriminação.
  • Transcrição do casamento e dos nascimentos: consulado de Portugal; efeitos em Portugal: ILGA Portugal.

Convém saber

A doação de esperma fora do quadro regulamentado — privada ou no estrangeiro — não estabelece a maternidade automática: a segunda mãe tem então de adotar. A gestação de substituição é proibida na Suíça: informe-se antes, não depois. Se um dos cônjuges for cabo-verdiano, o casamento não será reconhecido em Cabo Verde, que o reserva aos casais de sexo diferente.

Fontes

O artigo geral: Casamento entre pessoas do mesmo sexo

Regime de bens

Participação nos adquiridos (participation aux acquêts / Errungenschaftsbeteiligung) como regime ordinário e, desde 2023, legítimas claramente reduzidas. Para os casais portugueses, a lei do regime de bens decide-se na Suíça pela LDIP, não pelos regulamentos europeus: uma escolha escrita da lei numa convenção matrimonial evita divergências entre os dois países.

O regime ordinário é a participação nos adquiridos (artigos 196 e seguintes do CC): durante o casamento cada cônjuge continua proprietário dos seus bens e responde pelas suas dívidas; na dissolução — divórcio, morte ou mudança de regime — calcula-se o aumento de cada um (os adquiridos menos as dívidas), e cada cônjuge tem direito a metade do aumento do outro. Os bens anteriores ao casamento, as heranças e as doações são bens próprios (biens propres / Eigengut); os rendimentos do trabalho, incluindo o que se compra com eles, são adquiridos (acquêts / Errungenschaft). A separação de bens e a comunhão de bens escolhem-se por convenção matrimonial em ato autêntico no notário, antes ou durante o casamento, e podem ser alteradas — ao contrário de Portugal, onde o regime é imutável depois do casamento. A revisão do direito sucessório, em vigor desde 1 de janeiro de 2023, reduziu a legítima dos descendentes a metade da sua quota legal e suprimiu a dos pais. A Suíça não aplica o regulamento europeu 2016/1103 sobre os regimes matrimoniais: a lei federal sobre o direito internacional privado (LDIP / IPRG, artigo 54) submete o regime à lei do domicílio comum dos cônjuges, com possibilidade de escolher por escrito a lei nacional de um deles.

Os pontos-chave

Regime ordinárioParticipação nos adquiridos: propriedade separada durante o casamento, metade do aumento do outro na dissolução
Regimes convencionaisSeparação ou comunhão de bens, por convenção matrimonial em ato autêntico
Bens própriosBens anteriores, heranças e doações: fora da partilha
Ónus da provaQuem afirma que um bem é próprio tem de o provar; sem prova, é tratado como adquirido
Casa de famíliaVenda ou denúncia do arrendamento só com o consentimento do outro (artigo 169 do CC)
PrevidênciaHaveres do 2.º pilar acumulados durante o casamento divididos a meio no divórcio, em qualquer regime
Legítima dos descendentesMetade da quota legal desde 2023 (antes três quartos)
Legítima dos paisSuprimida em 2023
Legítima do cônjugeMantida em metade da sua quota legal
TestamentoHológrafo — inteiramente manuscrito, datado e assinado — ou público
Pacto sucessórioAdmitido em ato autêntico (pacte successoral / Erbvertrag); vincula os herdeiros que nele consentem
Executor testamentárioPode ser designado para gerir a partilha
2.º e 3.º pilaresRegras próprias, em parte fora da sucessão; o 3.º pilar segue as suas cláusulas de beneficiários, em grande parte fora da partilha
Imposto sucessórioCantonal: cônjuge isento em toda a parte, descendentes em quase todos os cantões
Casais portuguesesLDIP: lei do domicílio comum; escolha escrita da lei portuguesa possível

Na prática

  • Fazer um inventário dos bens de cada um no momento do casamento: decide mais tarde sobre dezenas de milhares de francos.
  • Guardar a prova das heranças e doações recebidas — incluindo uma casa ou terrenos herdados em Portugal — para que continuem bens próprios.
  • Assinar uma convenção matrimonial no notário se um dos cônjuges tem uma empresa ou património anterior a proteger; com bens em Portugal, incluir uma escolha expressa da lei aplicável, portuguesa ou suíça.
  • Os casais portugueses casados em Portugal mostram ao notário suíço o seu regime português (em regra a comunhão de adquiridos) e a convenção antenupcial, se existir: um tribunal suíço aplica em princípio a lei suíça do domicílio comum, ao passo que um tribunal ou um notário português pode aplicar a lei portuguesa — é essa divergência que a escolha escrita da lei evita.
  • Os brasileiros casados no Brasil sem pacto antenupcial estão, para o direito brasileiro, em comunhão parcial de bens; na Suíça, o regime segue em princípio a lei do domicílio comum, salvo escolha escrita.
  • A escritura de compra de uma casa em Portugal menciona o regime de bens do casal, pelo que é preciso levar a certidão de casamento transcrita e, se houver, a convenção matrimonial suíça, com apostila e tradução.
  • Fazer testamento ou pacto sucessório e usar a quota disponível alargada desde 2023 — é a forma de proteger um companheiro, que nunca herda por lei; um português domiciliado na Suíça pode escolher no testamento a lei portuguesa para a sua sucessão (artigo 90 da LDIP).
  • Depositar o testamento junto da autoridade cantonal ou do notário — um testamento que ninguém encontra é como se não existisse — e verificar os beneficiários do pilar 3a, que escapam em grande parte à partilha.

Custos e cobertura

A convenção matrimonial ou o pacto sucessório no notário custam, consoante o cantão e o património, de algumas centenas a vários milhares de francos. O testamento hológrafo é gratuito; o depósito junto da autoridade competente é barato. Para uso em Portugal, acrescem a apostila e a tradução.

Mudanças recentes

A revisão do direito sucessório entrou em vigor em 2023 e reduziu as legítimas; o imposto sucessório continua cantonal, com o cônjuge e os descendentes diretos isentos quase em toda a parte e os concubinos muitas vezes fortemente tributados.

A quem recorrer

  • Notários ou oficiais públicos cantonais (Urkundspersonen) — convenção matrimonial, pacto sucessório.
  • Autoridades cantonais das sucessões e registos de testamentos; Registo Central dos Testamentos (facultativo, mas recomendado).
  • Administrações fiscais cantonais — imposto sucessório.
  • Bens em Portugal e transcrição do casamento: notário português e consulado de Portugal.

Convém saber

Também na Suíça, um testamento escrito no computador é nulo: manuscrito, data e assinatura são obrigatórios. Sem prova, um bem é tratado como adquirido e partilhado: o inventário feito no casamento é a proteção mais eficaz e quase não custa nada. E confirme no consulado o regime de bens que constará da transcrição do casamento em Portugal.

Fontes

O artigo geral: Regime de bens

Divórcio

O divórcio suíço dispensa a culpa: faz-se por pedido conjunto ou, a pedido de um só, após dois anos de separação, e os haveres do 2.º pilar acumulados no casamento repartem-se a meio; para valer em Portugal, a sentença passa por revisão numa Relação.

Todos os pormenores: Divórcio

Página verificada em setembro de 2026. As regras e os dados citados podem mudar: em caso de dúvida, confirme-os na fonte oficial indicada.

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