Contraceção, aborto e drogas — União Europeia

Aborto. A União não tem competência sobre o aborto: cada Estado fixa os prazos e as condições, do aborto a pedido até às 10 semanas em Portugal e 12 a 14 na maioria dos Estados, às restrições da Polónia e à proibição quase total de Malta; o Parlamento Europeu pediu em 2024 a inscrição do direito ao aborto na Carta dos Direitos Fundamentais, sem efeito jurídico; ir abortar noutro Estado é legal.

Ilustração: Contraceção, aborto e drogas

Contraceção

A União não regula o acesso à contraceção — receita, preço, comparticipação e educação sexual são nacionais —, mas autoriza os medicamentos ao nível europeu: a pílula do dia seguinte com ulipristal é vendida sem receita em toda a União desde 2015, e as pílulas contracetivas continuam sujeitas a receita na maioria dos Estados; o Atlas Europeu da Contraceção classifica os Estados, com Portugal entre os melhores.

A contraceção é competência nacional: a exigência de receita, a comparticipação, a gratuidade para os jovens e a educação sexual variam de um Estado para outro. O direito da União intervém pela autorização dos medicamentos — a Agência Europeia de Medicamentos autorizou em 2015 a venda sem receita da pílula de emergência com ulipristal (ellaOne) em toda a União, decisão que cada Estado aplicou, salvo exceções temporárias — e pela livre circulação dos medicamentos e dos dispositivos (marcação CE dos preservativos e dos DIU). O Atlas Europeu da Contraceção, publicado cada ano pelo Fórum Parlamentar Europeu, classifica os Estados segundo o acesso, a comparticipação e a informação: Portugal, França, Bélgica, Luxemburgo e o Reino Unido no topo; a Polónia — único Estado que voltou a exigir receita para a pílula de emergência — no fundo. Uma mulher pode obter a sua contraceção em qualquer Estado nas condições deste, e a receita eletrónica europeia progride.

Os pontos-chave

CompetênciaNacional: receita, preço, comparticipação, educação sexual
Pílula de emergênciaUlipristal sem receita em toda a União desde 2015; levonorgestrel sem receita na maioria dos Estados; receita exigida na Polónia
Pílula contracetivaSob receita na maioria dos Estados; sem receita em Portugal para as renovações em certas condições
GratuidadeTotal em Portugal (SNS) e em França até aos 26 anos; parcial ou nula noutros Estados
Atlas Europeu da ContraceçãoPortugal, França, Bélgica, Luxemburgo no topo; Polónia no fundo
Receita transfronteiriçaVálida em toda a União; receita eletrónica em desenvolvimento
Preservativos e DIUMarcação CE; venda livre

Na prática

  • Uma mulher de viagem noutro Estado compra a pílula de emergência na farmácia sem receita (salvo Polónia), por 15 a 35 euros segundo o país; a sua receita de pílula é válida em toda a União, mas a marca pode não existir — o farmacêutico substitui pelo equivalente.
  • Os preços variam muito: uma pílula gratuita em Portugal custa de 5 a 20 euros por mês na Alemanha ou na Itália; um DIU hormonal de zero a 200 euros.
  • As jovens de Estados sem gratuidade encontram nos centros de planeamento familiar (Pro Familia na Alemanha, consultori em Itália) a informação e por vezes os métodos a preço reduzido.
  • O Atlas Europeu da Contraceção (contraceptioninfo.eu) dá para cada Estado a lista dos métodos, a comparticipação e os sites oficiais.

Custos e cobertura

De zero (Portugal, França até aos 26 anos) a 20 euros por mês para a pílula; 15 a 35 euros para a pílula de emergência; zero a 200 euros para um DIU ou um implante segundo o Estado.

Mudanças recentes

A França alargou a gratuidade da contraceção até aos 26 anos em 2022 e a da pílula de emergência a todas em 2023; a Polónia manteve a receita para a pílula de emergência apesar da lei de 2024, vetada pelo Presidente; a Agência Europeia de Medicamentos examina a venda sem receita de pílulas contracetivas progestativas, já sem receita no Reino Unido desde 2021.

A quem recorrer

  • Atlas Europeu da Contraceção (contraceptioninfo.eu): ficha por Estado.
  • IPPF European Network: associações de planeamento familiar de cada Estado.
  • Farmácias: pílula de emergência sem receita em toda a União salvo Polónia.

Convém saber

Sem receita não significa gratuita: a pílula de emergência custa até 35 euros nalguns Estados, e uma pílula contracetiva sob receita pode ser inteiramente a cargo da mulher. E a Polónia é a exceção a conhecer: uma viajante que precise da pílula de emergência aí terá de consultar um médico primeiro.

Fontes

O artigo geral: Contraceção

Aborto

O aborto é competência exclusiva dos Estados: os tratados não lhe dão à União nenhuma base, e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos deixa aos Estados uma ampla margem, exigindo só que os abortos legais sejam efetivamente acessíveis (acórdãos contra a Polónia e a Irlanda). O panorama em 2026: aborto a pedido até às 10 semanas em Portugal, 12 semanas na maioria dos Estados (Alemanha, Itália, Bélgica, Espanha até 14, França até 14, Países Baixos até 22-24, Suécia até 18), com períodos de reflexão em alguns (Portugal três dias, Itália sete, Alemanha três); restrições fortes na Polónia (só perigo para a vida ou a saúde e violação, desde a decisão de 2020) e proibição quase total em Malta (autorizado só em caso de perigo para a vida ou a saúde grave desde 2023). Ir abortar noutro Estado é legal e frequente — polacas na Alemanha e nos Países Baixos, maltesas em Itália —, e a pílula abortiva por correio, através de organizações como Women on Web, é tolerada ou perseguida segundo o Estado. O Parlamento Europeu votou em abril de 2024 uma resolução para inscrever o direito ao aborto na Carta dos Direitos Fundamentais, que exige a unanimidade dos Estados e não tem efeito jurídico. A França inscreveu-o na sua Constituição em 2024.

Os pontos-chave

CompetênciaExclusivamente nacional
A pedido10 semanas em Portugal; 12 na maioria; 14 em Espanha e França; 18 na Suécia; 22-24 nos Países Baixos
RestriçõesPolónia (vida, saúde, violação); Malta (vida, saúde grave)
ReflexãoTrês dias em Portugal e na Alemanha; sete em Itália; suprimida em França (2016) e Espanha (2023)
EstrangeirasAborto legal noutro Estado; sem reembolso pelo Estado de origem em regra
Pílula abortivaAutorizada em todos os Estados salvo Malta; por telemedicina em vários
Carta dos Direitos FundamentaisResolução do Parlamento de 2024 sem efeito jurídico

Na prática

  • Uma mulher de um Estado restritivo pode abortar noutro Estado nas condições deste — prazo, preço, documentos —; os Países Baixos e a Espanha acolhem até prazos longos; o custo é a seu cargo (400 a 1 000 euros), salvo ajuda de associações.
  • Em Portugal, uma estrangeira não residente pode abortar no SNS até às 10 semanas, com pagamento do ato (algumas centenas de euros) se não estiver coberta; as portuguesas que ultrapassam as 10 semanas vão a Espanha (14 semanas) ou aos Países Baixos.
  • A pílula abortiva por telemedicina é legal em vários Estados até às 9-10 semanas; a sua importação a partir do estrangeiro é ilegal em alguns e tolerada noutros.
  • As associações europeias (Abortion Network Amsterdam, Ciocia Basia, Women on Web) informam e ajudam as mulheres que devem viajar.

Custos e cobertura

Gratuito ou comparticipado nos sistemas públicos para as residentes (Portugal, França, Espanha, Países Baixos…); 400 a 1 000 euros para as estrangeiras no privado, mais a viagem.

Mudanças recentes

O Parlamento Europeu pediu em abril de 2024 a inscrição do direito ao aborto na Carta; a França constitucionalizou a liberdade de abortar em março de 2024; Malta autorizou em 2023 o aborto em caso de perigo para a vida ou a saúde grave; a Polónia continua bloqueada apesar da mudança de governo em 2023; a Espanha suprimiu o período de reflexão em 2023.

A quem recorrer

  • Abortion Network Amsterdam e associações nacionais para as mulheres que devem viajar.
  • Women on Web (womenonweb.org): informação e telemedicina segundo o país.
  • Sistemas de saúde nacionais: em Portugal, o SNS 24 (808 24 24 24).

Convém saber

Os prazos contam-se de forma diferente segundo o Estado — semanas de gravidez (desde a conceção) em Portugal, semanas de amenorreia (desde a última menstruação, duas semanas a mais) em França —: 10 semanas de gravidez em Portugal correspondem a 12 semanas de amenorreia. Uma mulher que se aproxima do limite verifica a contagem antes de escolher o país.

Fontes

O artigo geral: Aborto

Drogas e estupefacientes

A União não harmoniza a lei sobre as drogas — cada Estado decide se o consumo é crime, contraordenação ou nada —, mas fixa penas mínimas para o tráfico (Decisão-Quadro 2004/757), coordena a vigilância através da Agência da União Europeia para as Drogas (Lisboa) e do sistema de alerta rápido, e financia a redução de riscos; a cannabis é legal para os adultos em Malta, no Luxemburgo e na Alemanha, descriminalizada em Portugal e noutros.

O direito penal das drogas é nacional, dentro dos limites das convenções da ONU: a Decisão-Quadro 2004/757 impõe só penas mínimas para o tráfico (um a três anos no mínimo da pena máxima, cinco a dez para as grandes quantidades) e deixa livre o tratamento do consumo — crime na Suécia, na França e noutros, contraordenação em Portugal desde 2001, tolerado nos Países Baixos, legal para a cannabis em Malta (2021), no Luxemburgo (2023) e na Alemanha (2024), com clubes ou cultivo pessoal. A Agência da União Europeia para as Drogas (EUDA, ex-OEDT, sediada em Lisboa) recolhe os dados, gere o sistema de alerta rápido sobre as novas substâncias — mais de 900 identificadas — e publica o Relatório Europeu sobre Drogas; a Estratégia da UE sobre Drogas 2021-2025 privilegia a redução de riscos. A cannabis é a droga mais consumida (8 % dos adultos no último ano), seguida da cocaína, em forte progressão, e das anfetaminas; as mortes por overdose são de cerca de 6 000 a 7 000 por ano, sobretudo por opioides; a cannabis medicinal é autorizada na maioria dos Estados. O álcool e o tabaco, legais, matam muito mais: a idade mínima de venda é 18 anos na maioria dos Estados (16 para a cerveja e o vinho na Alemanha, na Áustria e na Bélgica), e a taxa de alcoolemia ao volante de 0,5 g/l em geral, 0,2 ou zero em vários Estados e para os jovens condutores. A União harmoniza o topo da cadeia, produção, tráfico, importação e exportação, através de regras mínimas comuns sobre infrações e penas; o consumo pessoal continua a ser decidido por cada Estado, que escolhe se o pune e como.

Os pontos-chave

ConsumoNacional: crime (França, Suécia), contraordenação (Portugal), tolerância (Países Baixos), cannabis legal (Malta, Luxemburgo, Alemanha)
TráficoPenas mínimas comuns (Decisão-Quadro 2004/757); crime em todos os Estados
AgênciaEUDA (Lisboa): dados, alerta rápido, Relatório Europeu sobre Drogas
ConsumosCannabis 8 % dos adultos no último ano; cocaína em progressão; 6 000 a 7 000 mortes por overdose por ano
Cannabis medicinalAutorizada na maioria dos Estados, com regras variáveis
Álcool18 anos na maioria (16 para cerveja e vinho na Alemanha, Áustria, Bélgica); 0,5 g/l ao volante em geral
ViagensA lei do Estado onde se está aplica-se; a cannabis comprada legalmente não pode atravessar fronteiras

Na prática

  • A lei aplicável é a do Estado onde se está: comprar cannabis legalmente num clube de Malta ou numa coffeeshop neerlandesa e atravessar a fronteira com ela é tráfico no Estado vizinho, incluindo em Portugal, onde a posse acima de dez dias de consumo é crime.
  • Uma pessoa dependente em viagem tem acesso aos cuidados de urgência em toda a União com o cartão europeu de seguro de doença; os tratamentos de substituição (metadona, buprenorfina) exigem uma receita e um certificado para transportar os medicamentos (atestado Schengen).
  • A EUDA e as agências nacionais publicam os alertas sobre as substâncias perigosas (opioides sintéticos, nitazenos) e os serviços de análise de drogas (drug checking) existem em vários Estados, incluindo Portugal.
  • A cannabis medicinal prescrita num Estado não é automaticamente legal noutro: informar-se antes de viajar.

Custos e cobertura

Os cuidados de urgência são cobertos pelo cartão europeu; os tratamentos da dependência são gratuitos ou comparticipados nos sistemas públicos; as multas por consumo vão de zero (Portugal, na maioria dos casos) a milhares de euros.

Mudanças recentes

A Alemanha legalizou a cannabis para os adultos em abril de 2024 (posse de 25 g, cultivo de três plantas, clubes); a EUDA substituiu o OEDT em julho de 2024 com competências alargadas; os opioides sintéticos (nitazenos) causaram alertas em vários Estados em 2023-2025; a Chéquia prepara uma regulação da cannabis.

A quem recorrer

  • EUDA — Agência da União Europeia para as Drogas (euda.europa.eu): dados por Estado, alertas.
  • Linhas nacionais de apoio (em Portugal, Linha Vida 1414 e ICAD).
  • Serviços de análise de drogas (drug checking) nos festivais e em várias cidades.

Convém saber

A Europa das drogas é um puzzle: a mesma quantidade de cannabis é legal em Berlim, contraordenação em Lisboa, crime em Paris e Estocolmo. E a cocaína, cada vez mais pura e barata, e os opioides sintéticos, cada vez mais presentes, são o risco em progressão — a análise das substâncias antes do consumo, onde existe, salva vidas.

Fontes

O artigo geral: Drogas e estupefacientes

Página verificada em setembro de 2026. As regras e os dados citados podem mudar: em caso de dúvida, confirme-os na fonte oficial indicada.

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