Começa pelo controlo
A violência física raramente é o primeiro sinal. Primeiro vem o controlo: das saídas, dos amigos, do telemóvel, do dinheiro, das roupas; depois a desvalorização — as críticas constantes, as humilhações à frente dos outros, o «sem mim não és nada»; depois o isolamento — a família e os amigos que se afastam porque é mais simples. Quando chegam as pancadas, a vítima está muitas vezes já sozinha, sem dinheiro próprio e convencida de que as merece. A violência psicológica e económica é violência, e a lei reconhece-a como tal num número crescente de países — Portugal e o Brasil incluídos.
O ciclo
A violência no casal segue um ciclo descrito há décadas: a tensão sobe, explode — insultos, pancadas, ameaças —, depois vêm as desculpas, os presentes, as promessas, a «lua de mel», e a tensão volta a subir. Cada volta aperta o cerco: os episódios aproximam-se e agravam-se. Reconhecer o ciclo permite deixar de acreditar na lua de mel, que é a fase mais perigosa porque é aquela em que se fica.
O que diz a lei, em todo o lado
Em todos os países cobertos por este site, a violência no casal é um crime específico ou agravado, a violação conjugal é uma violação, e a vítima pode obter uma medida de proteção — afastamento do agressor da casa, proibição de aproximação e de contacto — em prazos curtos, muitas vezes sem queixa penal prévia. Portugal tem o crime de violência doméstica desde 2007 e o estatuto da vítima; o Brasil a Lei Maria da Penha desde 2006, referência mundial; Angola, Moçambique, Cabo Verde e os outros PALOP leis específicas dos anos 2010. O que muda são os prazos, os números e os lugares: as fichas de país dão-nos.
Proteger-se
- Falar disso com uma pessoa de confiança ou com um número de escuta, mesmo sem intenção de partir: quebra o isolamento, que é a arma do agressor.
- Guardar as provas: certificados médicos, fotografias, mensagens, testemunhos, um diário dos factos com as datas.
- Preparar uma partida: documentos de identidade, documentos dos filhos, algum dinheiro, um saco em casa de alguém de confiança — mesmo que não se parta hoje.
- Saber que a partida é o momento mais perigoso: a maioria dos homicídios no casal ocorre durante ou depois da separação. Partir com um plano, não por impulso, e com o apoio de uma associação.
Apresentar queixa
A queixa pode ser apresentada em qualquer esquadra ou posto, no hospital, no Ministério Público, e em alguns países online. Não é obrigatória para obter uma proteção ou um alojamento de emergência, e um certificado médico redigido hoje servirá se se apresentar queixa dentro de um ano. As fichas de país dão o número de emergência — o 800 202 148 em Portugal, o 180 no Brasil —, o número de escuta, as associações e o percurso concreto em cada país.
