Como nos conhecemos, país a país

Na Índia, nove em cada dez casamentos ainda são combinados pelas famílias; no Japão, as câmaras municipais organizam encontros; no Irão só uma aplicação é permitida; no Paquistão, o Tinder está bloqueado; nos Estados Unidos, um casal em três conheceu-se na internet; no Brasil e em Portugal, a festa, a família e o telemóvel dividem o trabalho. A volta ao mundo das maneiras de se conhecer.

Três grandes maneiras, e um mundo que muda

Durante quase toda a história, conhecer um parceiro foi assunto de família: escolhiam os pais, os tios, as casamenteiras. O «casamento por amor», em que duas pessoas se escolhem sozinhas, é uma invenção recente da Europa e da América, generalizada no século XX e ainda minoritária em boa parte do mundo. Hoje coexistem três sistemas: o encontro combinado pela família (Ásia do Sul, parte do Médio Oriente e de África), o encontro pelo círculo social — amigos, estudos, trabalho, festas, igreja — e o encontro em linha, tornado a primeira via nos países ricos: nos Estados Unidos, 39 % dos casais heterossexuais formados em 2017 tinham-se conhecido na internet (Rosenfeld, Stanford), à frente dos amigos e dos bares. Em Portugal, as sondagens apontam para um em cada três ou quatro casais recentes; no Brasil, segundo maior mercado mundial do Tinder, a proporção cresce depressa. A página Como nos conhecemos explica os números; esta dá a volta ao mundo.

Portugal, Brasil e a lusofonia: o grupo, a festa e o telemóvel

Em Portugal a via clássica continua a ser o grupo de amigos da escola e da faculdade, as festas académicas e as praxes, as festas populares (Santos Populares em junho, romarias, festas da aldeia em agosto, quando os emigrantes regressam), a praia, as saídas à noite e, há quinze anos, as aplicações (Tinder, Badoo, Bumble, Meetic); o trabalho e a vizinhança perdem peso, e o casamento chega tarde, aos 33 anos em média. No Brasil, a festa é o centro de tudo: aniversários e churrascos de família, o Carnaval, as festas juninas, os bailes, o forró no Nordeste e o sertanejo no interior, as baladas nas cidades, a igreja — as evangélicas, com os seus «cultos de solteiros», tornaram-se um dos maiores lugares de encontro do país —, e as aplicações, usadas por dezenas de milhões. Em Angola e em Moçambique, o encontro é livre mas o casamento não: a família aprova, o alambamento (Angola) e o lobolo (Moçambique), a compensação matrimonial, negoceia-se entre as famílias, e a «apresentação» precede qualquer união; as aplicações são muito usadas em Luanda e Maputo. Em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, a diáspora pesa tanto quanto a terra: muitos casais formam-se entre as comunidades de Lisboa, Paris, Boston ou Roterdão e a família que ficou. Em Timor-Leste e em Macau, a família e a igreja (ou o templo) continuam a ter a palavra.

Ásia do Sul: o casamento combinado, modernizado

Na Índia, mais de nove em cada dez casamentos continuam a ser combinados (93 % segundo o inquérito Lok Foundation-Oxford de 2018; 3 % «por amor»), mas a combinação mudou de cara: os pais pré-selecionam, os futuros esposos conhecem-se, falam e podem dizer não. Os anúncios matrimoniais dos jornais deram lugar aos portais matrimoniais — Shaadi.com (1997), BharatMatrimony, Jeevansathi —, onde são muitas vezes os pais que criam o perfil e filtram por religião, casta, região, horóscopo e rendimento; em Goa, com a sua herança portuguesa, os católicos casam entre si com a mesma lógica. No Paquistão o casamento é combinado na imensa maioria dos casos, muitas vezes dentro da família alargada; o Tinder, o Grindr e mais três aplicações foram bloqueados em setembro de 2020. No Bangladeche manda o ghotok (casamenteiro); no Sri Lanka, um astrólogo verifica a compatibilidade dos horóscopos antes de qualquer encontro.

Médio Oriente e Golfo: a família primeiro, as aplicações às escondidas

Na Arábia Saudita o encontro passa pelas mães e pelas irmãs, que identificam uma candidata nos casamentos femininos e organizam a shawfa, o «olhar» autorizado entre futuros esposos diante da família; toda a relação fora do casamento continua a ser punível. No Irão todas as aplicações estrangeiras estão bloqueadas; o Estado lançou em 2021 a sua, Hamdam, a única permitida, que exige documento de identidade, teste psicológico e autorização dos pais. No Egito o gawaz el-salonat — o «casamento de sala», com o pretendente recebido pela família na sala — continua a ser a via clássica; a polícia usa as aplicações para armar ciladas aos homossexuais. Na Turquia, o encontro através das famílias, görücü usulü, ainda está por trás de quase metade dos casamentos. Em Israel, o mundo ultraortodoxo casa por shidduch, com casamenteiro e encontros acompanhados.

Ásia Oriental: quando o Estado e os pais se metem

O resto de África: o grupo, o dote e a igreja

Em quase toda a África subsariana o encontro é livre mas o casamento não: a família tem de aprovar, o dote (lobola no sul) negoceia-se e a «cerimónia de apresentação» precede qualquer união. As pessoas conhecem-se em casamentos e funerais, nos grupos de jovens das igrejas e mesquitas, na universidade, no mercado; as aplicações são muito usadas nas capitais, com grande desconfiança das burlas, e servem de armadilha onde a homossexualidade é perseguida. No Magrebe, o Tinder funciona, mas as relações fora do casamento são crime em Marrocos e na Argélia. A página Encontros internacionais descreve cada país.

Europa e América do Norte: a internet primeiro

Nos Estados Unidos a internet é a primeira via desde 2013 — também para o milhão e meio de luso-americanos da Nova Inglaterra e da Califórnia e para os brasileiros de Boston, Nova Jérsia e Miami, com as festas das comunidades como ponte —; no Reino Unido, na Alemanha e na Escandinávia vem em primeiro ou segundo lugar a seguir aos amigos. Os pormenores mudam: os britânicos conhecem-se no pub, os alemães nas associações e no desporto, os franceses em festas privadas, os espanhóis e os italianos no grupo de amigos. Em França, na Suíça e no Luxemburgo, onde vivem mais de dois milhões de portugueses e lusodescendentes, as associações portuguesas, os ranchos folclóricos, as festas de Nossa Senhora de Fátima e os regressos de agosto continuam a formar casais. Na Rússia e na Europa de Leste pesam ainda a família e o trabalho; o Tinder deixou a Rússia em 2023.

Onde os encontros em linha não existem, ou quase

Para continuar: o speed dating, as festas para solteiros, os encontros especiais e os encontros em linha.

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