Um mercado mundial, e o Brasil à cabeça
O inquérito 2024 da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) conta 37,9 milhões de intervenções feitas por cirurgiões plásticos no mundo — 17,4 milhões de operações e 20,5 milhões de tratamentos não cirúrgicos (toxina botulínica 7,8 milhões, ácido hialurónico 6,3 milhões) —, 42,5 % mais do que em 2020. Os Estados Unidos vêm primeiro (6,1 milhões), seguidos do Brasil (3,1 milhões, e primeiro país do mundo em operações, com 2,3 milhões: mais lipoaspirações e mais aumentos de peito do que qualquer outro) e do Japão; Portugal conta algumas dezenas de milhares de operações por ano. A cirurgia das pálpebras passou a ser em 2024 a operação mais praticada, à frente da lipoaspiração, do aumento mamário, da revisão de cicatrizes e da rinoplastia; no Brasil dominam a lipoaspiração, a mamoplastia e a abdominoplastia, e a cirurgia estética é vista como um bem de consumo — a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica conta perto de 6 000 membros, o segundo maior corpo de cirurgiões plásticos do mundo, e a escola de Ivo Pitanguy (1926-2016) formou cirurgiões de todo o planeta. Os países que recebem a maior proporção de pacientes estrangeiros são a Tunísia, os Emirados, a Colômbia e a Turquia.
As operações mais pedidas, e o que pode correr mal
- Aumento mamário (implantes ou gordura própria): contratura capsular (5 a 10 % aos dez anos), rutura, deslocamento, perda de sensibilidade, reoperação num caso em cinco em dez anos; os implantes não são para toda a vida.
- Lipoaspiração: irregularidades, seroma, embolia gorda, perfuração; o risco sobe com o volume aspirado (acima de 5 litros, internamento obrigatório; o CFM limita a 7 % do peso).
- Lifting de glúteos brasileiro (BBL): injeção de gordura nos glúteos; a operação estética mais mortal, com mortalidade estimada em 1 por 3 000 em 2017 (embolia gorda quando a gordura entra no músculo), reduzida para cerca de 1 por 15 000 desde que se injeta só sob a pele com ecografia; os cirurgiões britânicos suspenderam-na de 2018 a 2022, a Flórida regulamentou-a em 2019 e 2023.
- Rinoplastia: resultado imprevisível em 10 %, retoque em 10 a 15 % dos casos.
- Abdominoplastia: a mais arriscada das operações correntes para a trombose e a embolia pulmonar (0,3 a 1 %), sobretudo combinada com lipoaspiração.
- Pálpebras, lifting facial: hematoma, assimetria, olho que não fecha, lesão do nervo facial (rara).
- Injeções (toxina, ácido hialurónico): necrose da pele e cegueira por embolização de um vaso (várias centenas de casos de cegueira publicados no mundo), infeções por produtos contrafeitos; em Portugal só médicos podem injetar; no Brasil, dentistas, biomédicos e farmacêuticos disputam os «procedimentos estéticos», e os acidentes multiplicam-se.
- PMMA e «bioplastia»: o polimetilmetacrilato injetado em glúteos, pernas ou rosto — permitido no Brasil em pequenas doses pela Anvisa, mas usado por litros — migra, inflama e deforma anos depois, e matou dezenas de mulheres e homens; o caso do «Dr. Bumbum» (Denis Furtado, condenado após a morte de uma paciente em 2018 num apartamento do Rio) tornou-se o símbolo. A SBCP pede a proibição total. Nunca aceitar um «preenchimento definitivo».
Os escândalos que mudaram as regras
- PIP (2010): o fabricante francês Poly Implant Prothèse enchia os implantes com silicone industrial; 400 000 mulheres no mundo, dezenas de milhares no Brasil (segundo maior mercado da marca) e alguns milhares em Portugal; taxa de rutura dupla; o fundador Jean-Claude Mas condenado a quatro anos em 2013; o certificador TÜV Rheinland condenado a indemnizar; a Anvisa suspendeu a marca e a DGS portuguesa recomendou vigilância.
- Linfoma anaplásico associado a implantes (BIA-ALCL): cancro raro (cerca de 1 caso por 3 000 a 30 000 implantes) ligado às próteses texturizadas; os implantes Biocell da Allergan foram retirados do mercado mundial em 2019; recomenda-se vigilância, não a remoção preventiva.
- Os mortos do turismo médico: ver abaixo.
O turismo médico: o verdadeiro preço de um orçamento a metade
Um aumento mamário custa 5 000 a 7 000 € em Portugal, 15 000 a 25 000 reais no Brasil, 2 500 a 3 500 € na Turquia, voo e hotel incluídos nos pacotes. A diferença explica-se pelos salários, mas também pelo que não se vê: sem segunda consulta, tempo operatório comprimido (várias operações numa só sessão, o primeiro fator de mortalidade), alta no dia seguinte, sem acompanhamento, e a impossibilidade de processar o profissional a partir do próprio país. Os factos: o Parlamento britânico contou em março de 2024 28 britânicos mortos na Turquia após operações não urgentes desde 2019, e o Foreign Office assinala mais 7 mortos em 2025; os CDC americanos investigaram em 2023 mortes de americanas após BBL na República Dominicana e infeções por micobactérias após lipoaspirações no México. As regras: nunca combinar várias operações numa sessão, ficar pelo menos dez dias no local, recusar qualquer operação não precedida de uma consulta com o próprio cirurgião (não com um «coordenador»), verificar a sua inscrição na ordem do país, exigir um contrato escrito, e saber que o seguro não cobrirá nem as complicações nem o repatriamento. Os destinos e a sua especialidade: Turquia (Istambul: cabelo, dentes, nariz, BBL; 1,5 milhões de pacientes estrangeiros por ano; destino crescente dos portugueses), Brasil (Rio, São Paulo: altíssimo nível nos bons cirurgiões, mas também as «clínicas de fachada» e os falsos médicos — verificar sempre o CRM), Espanha (Madrid, Barcelona, Málaga: qualidade e proximidade para os portugueses), Tunísia (para os francófonos), Colômbia, México e República Dominicana (para os americanos, várias mortes após BBL), Coreia do Sul (Seul, rosto e pálpebras), Tailândia (Banguecoque, hospitais acreditados JCI). Para Angola, Moçambique e Cabo Verde, os destinos são Portugal, o Brasil e a África do Sul (Joanesburgo, Cidade do Cabo).
Verificar um cirurgião e um estabelecimento
- Portugal: o título protegido é «especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética», verificável na Ordem dos Médicos (consulta de médicos) e na SPCPRE; «cirurgião estético» e «médico estético» não são especialidades. O estabelecimento deve estar licenciado e registado na Entidade Reguladora da Saúde. Consentimento informado escrito obrigatório; menores só com ambos os pais e por motivo não puramente estético; IVA de 23 %; sem comparticipação do SNS, salvo reconstrução (cancro, malformação, queimaduras).
- Brasil: procurar no portal do CFM o médico e o seu RQE (registo de qualificação de especialista) em cirurgia plástica — qualquer médico pode legalmente operar, mas só o especialista tem a formação; membro titular ou associado da SBCP; clínica com alvará da Vigilância Sanitária e do CRM; o CFM proíbe cirurgias estéticas em hospitais sem UTI para grandes procedimentos, e a Anvisa regula os produtos. Os menores precisam do consentimento dos pais e, pelas regras do CFM, de avaliação; o CFM e a SBCP desaconselham a cirurgia íntima estética antes dos 18 anos.
- Angola, Moçambique, Cabo Verde: Ordem dos Médicos nacional; poucos especialistas, formados em Portugal, no Brasil ou em Cuba; os casos graves são evacuados para Lisboa ou Joanesburgo. Timor-Leste: nenhum cirurgião plástico; Bali e Singapura. Macau: Serviços de Saúde de Macau; muitos residentes vão a Hong Kong ou à Coreia.
- Em todo o lado: a ISAPS publica o diretório dos seus membros, verificados no seu país; um cirurgião estrangeiro que não aparece nem aí nem na ordem do seu país não deve operar.
A cabeça antes do corpo
A dismorfofobia (preocupação obsessiva com um defeito mínimo ou imaginário) atinge 2 % da população e 10 a 15 % dos candidatos à cirurgia estética, que não tiram dela nenhum benefício e encadeiam operações; um bom cirurgião deteta-a e recusa-se a operar. Os pedidos copiados dos filtros das redes («dismorfia do Snapchat») e os que se seguem a uma rutura ou a um luto justificam esperar. Uma operação bem-sucedida muda um detalhe do corpo; não muda uma vida a dois — a página Sedução recorda como os cânones variam. Enfim, a cirurgia que repara (após um cancro, um acidente, uma malformação, uma excisão — ver Cirurgia íntima) segue outras regras e é comparticipada.
