Página de informação médica: descreve os tratamentos e os seus riscos segundo as recomendações publicadas (WPATH SOC 8, normas das sociedades científicas), sem substituir as equipas que os praticam. A transição é um percurso de vários anos, pessoal, em que nenhuma etapa é obrigatória.
As etapas, e o que não é obrigatório
Uma transição médica compõe-se de peças que cada pessoa escolhe: as hormonas (a grande maioria), a cirurgia do tronco (frequente nos homens trans), a cirurgia genital (uma minoria: um quarto a um terço das mulheres trans, menos de um homem trans em dez, pelo seu peso), a cirurgia facial, a voz, a depilação. Em Portugal, a Lei 38/2018 garante o acompanhamento no SNS sem diagnóstico psiquiátrico prévio, com consultas de referência em Lisboa, Coimbra e Porto e listas de espera de um a dois anos para a cirurgia. No Brasil, o Processo Transexualizador do SUS (desde 2008, ampliado em 2013) cobre hormonas e cirurgias em hospitais universitários, com esperas que chegam a dez anos; a Resolução CFM 2.427/2025 fixa as regras médicas, mais restritivas do que as de 2019. Nos PALOP e em Timor-Leste não existe qualquer percurso; em Macau aplicam-se as regras chinesas.
As hormonas e os seus efeitos secundários
- Feminização: estradiol (comprimidos, gel, adesivos, injeções) e um antiandrogénio (acetato de ciproterona, espironolactona ou análogos da GnRH). Efeitos em três meses a dois anos: pele, peito (fase definitiva em dois a três anos, muitas vezes modesta), redistribuição da gordura, menos libido e ereções, infertilidade progressiva (conservar esperma antes). Riscos: trombose venosa (sobretudo com tabaco), prolactina alta e meningiomas com a ciproterona em dose alta, triglicéridos, cálculos biliares, um risco de cancro da mama pequeno mas real. Análises de três em três a seis em seis meses no primeiro ano. A voz não muda.
- Masculinização: testosterona (injeções de duas em duas a doze em doze semanas, gel). Efeitos em meses: voz, pelos, músculo, clítoris, fim da menstruação (mas não é contracetivo!), acne, calvície. Riscos: poliglobulia (sangue espesso, controlo do hematócrito), colesterol, hipertensão, atrofia vaginal, possível aumento do risco cardiovascular; fertilidade parcialmente recuperável.
- Bloqueadores da puberdade (análogos da GnRH, em adolescentes): suspendem o desenvolvimento, reversíveis ao parar segundo os dados disponíveis; os efeitos no osso e no desenvolvimento psicossexual discutem-se — é o debate mundial atual; no Brasil, a Resolução CFM 2.427/2025 proíbe os bloqueadores e as hormonas antes dos 18 anos, decisão contestada no STF pelas associações trans (ver A transidentidade).
As operações de feminização
- Vaginoplastia por inversão peniana (a técnica de referência, 4 a 6 horas, 7 a 10 dias de internamento, dilatações diárias durante meses e depois para toda a vida) ou com um segmento de cólon sigmoide (mais profunda, lubrificada, mas cirurgia abdominal). Complicações: estenose ou perda de profundidade (10 a 20 %), fístula retovaginal (1 a 3 %), necrose parcial, problemas urinários, dor; satisfação elevada, orgasmo conservado na maioria. Custo privado: 15 000 a 25 000 € em Espanha, 10 000 a 20 000 dólares na Tailândia, 40 000 a 80 000 reais no Brasil.
- Orquiectomia isolada: mais simples, dispensa os antiandrogénios.
- Aumento mamário com implantes (os mesmos que para qualquer mulher, com os mesmos riscos: contratura capsular, rutura, o raro linfoma BIA-ALCL).
- Feminização facial (testa, maxilar, nariz, cartilagem tiroide): pesada, cara (10 000 a 40 000 €), raramente comparticipada; cirurgia da voz (glotoplastia) depois da terapia da fala.
As operações de masculinização
- Mastectomia: dupla incisão com enxerto dos mamilos ou via periareolar; cicatrizes, perda de sensibilidade dos mamilos frequente; a operação mais pedida e mais satisfatória.
- Histerectomia e ovariectomia: muitas vezes após alguns anos de testosterona.
- Metoidioplastia: libertação do clítoris hipertrofiado (4 a 6 cm), com ou sem alongamento da uretra; ereção natural, penetração raramente possível, menos complicações urinárias.
- Faloplastia: retalho livre do antebraço (cicatriz visível, melhor sensibilidade) ou da coxa, em dois a quatro tempos ao longo de um a dois anos; prótese erétil e testicular depois. É a cirurgia mais complexa de toda a transição: fístulas e estenoses uretrais em 20 a 40 % dos casos, necrose do retalho (2 a 5 %), complicações da prótese; resultados muito variáveis conforme a equipa, daí a importância de um centro com grande volume.
A idade mínima
As recomendações internacionais (WPATH SOC 8, 2022) já não fixam idades, salvo 18 anos para a faloplastia, e deixam a avaliação caso a caso; na prática e na lei de quase todos os países, as cirurgias genitais são reservadas aos maiores, a mastectomia é possível a partir dos 16 ou 17 com acordo dos pais em alguns países, e as hormonas a partir dos 15 ou 16 após acompanhamento. Em Portugal, as cirurgias exigem a maioridade (a lei de 2018 permite a mudança de nome aos 16); no Brasil, a Resolução CFM 2.427/2025 (que revogou a de 2019) só permite a hormonização a partir dos 18 anos e voltou a fixar em 21 anos a idade mínima para as cirurgias genitais com efeito esterilizante. O Reino Unido e os países nórdicos restringiram os tratamentos de menores; 27 estados americanos proíbem-nos por completo.
País a país: permitido, comparticipado, proibido
- Portugal: legal, comparticipada pelo SNS; centros de referência: Hospital de Santa Maria (Lisboa, a consulta mais antiga, desde 1995), Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (unidade de referência para a cirurgia genital), Hospital de São João (Porto); esperas de um a três anos; alguns cirurgiões privados em Lisboa e no Porto para a mastectomia e o peito.
- Brasil: legal, coberta pelo SUS no Processo Transexualizador; hospitais habilitados: Hospital de Clínicas de Porto Alegre (o programa mais antigo, desde 1998), HC da USP (São Paulo), Hospital das Clínicas de Goiânia, Hospital Pedro Ernesto (Rio de Janeiro), Recife, Curitiba, Belo Horizonte; filas de vários anos, e o Brasil é ao mesmo tempo o país que mais assassina pessoas trans no mundo (mais de 100 por ano). Muitos cirurgiões privados em São Paulo e no Rio.
- Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial: nenhuma equipa, nenhum reconhecimento legal; quem pode vai a Portugal, ao Brasil ou à África do Sul (Groote Schuur, na Cidade do Cabo, único programa público do continente, com lista de espera de décadas). Timor-Leste: nada. Macau: regras da China, onde a operação exige o acordo da família e registo criminal limpo.
- Proibições: Rússia (toda a transição médica proibida desde julho de 2023), Hungria, países do Golfo, a maior parte de África e do Sudeste Asiático (salvo Tailândia, Vietname e Filipinas para operar, sem reconhecimento legal); Porto Rico proíbe desde 2025 qualquer tratamento antes dos 21 anos. Irão: legal desde a fátua de Khomeini (1987) e subsidiada — com a pressão sobre os homossexuais para a usarem e «voltarem a ser legais».
Os destinos: para onde se vai quando o próprio país não opera
- Tailândia: primeiro destino mundial desde os anos 1980 — Preecha Aesthetic Institute (Banguecoque, fundado pelo pioneiro Dr. Preecha Tiewtranon), Kamol Hospital, Yanhee Hospital, Chettawut; vaginoplastia 10 000 a 20 000 dólares, duas a três semanas de acompanhamento no local, qualidade reconhecida mas distância para as complicações.
- Espanha: Barcelona (Dr. Iván Mañero, IM Gender), Madrid, Marbella; 15 000 a 25 000 €, o destino natural dos portugueses. Bélgica: UZ Gent (Prof. Stan Monstrey, uma das equipas mais reputadas da Europa).
- Sérvia: Belgrado, a escola do Prof. Sava Perović continuada pelo Dr. Miroslav Djordjević, conhecida pela metoidioplastia e a faloplastia a preços moderados (8 000 a 20 000 €).
- Brasil (São Paulo, Rio): destino dos vizinhos sul-americanos e dos PALOP; México, Índia: nível variável. Turquia, Coreia do Sul: sobretudo rosto e peito.
Regras para o estrangeiro: exigir o número de operações deste tipo feitas pelo cirurgião, fotos de resultados e contactos de pacientes; prever o tratamento das complicações com uma equipa no próprio país (que não é obrigada); nunca operar antes do acordo do psicólogo ou do médico que acompanha; e ler a página Cirurgia estética sobre os perigos do turismo médico, que aqui valem multiplicados.
Arrependimento, destransição, e depois
O arrependimento após cirurgia genital é raro nas coortes publicadas — da ordem de 1 a 2 % na Europa ao longo de décadas (Amesterdão, 1972-2015: 0,6 % nas mulheres trans, 0,3 % nos homens trans) —, sendo as complicações e os resultados dececionantes muito mais frequentes do que o arrependimento sobre a identidade. A destransição (regresso ao género de nascimento) diz respeito a alguns por cento de quem começou uma transição, mais entre jovens acompanhados recentemente; é também um percurso médico, que merece o mesmo acompanhamento. Depois de uma transição é preciso um seguimento para toda a vida: hormonas, ossos, rastreios (próstata conservada nas mulheres trans, colo do útero e restos de mama nos homens trans). A secção Transexuais trata dos direitos, do casal e da intimidade depois da transição.
