A transidentidade: o que é, quantas pessoas, o que diz a medicina

A transidentidade não é uma orientação sexual, mas é tratada aqui porque as perguntas são vizinhas: é uma escolha, uma doença, uma moda? Quantas pessoas? Desde quando? O que a ciência sabe, o que não sabe, e as palavras para falar disso.

O que é

Uma pessoa trans é uma pessoa cuja identidade de género — o sentimento íntimo de ser homem, mulher ou nenhum dos dois — não corresponde ao sexo que lhe foi atribuído ao nascer. Não é uma orientação sexual, nem um travestismo, nem uma intersexualidade. Esse sentimento aparece quase sempre na infância ou na adolescência, por vezes mais tarde, e é estável: as pessoas que «destransicionam» existem — 1 a 8 % segundo os estudos, quase sempre por razões sociais ou familiares — mas são uma minoria.

Quantas pessoas

Os inquéritos recentes dão 0,3 a 0,6 % dos adultos (Estados Unidos 0,6 %, Inglaterra 0,5 % no censo de 2021; no Brasil, o primeiro estudo nacional, de 2021, estimou em 2 % os adultos trans e não binários, cerca de três milhões de pessoas; em Portugal, as estimativas vão de 30 000 a 80 000), muito mais do que as poucas centenas seguidas nos hospitais. A proporção é mais alta entre os 18 e os 24 anos, e o sentido das transições inverteu-se: desde 2010 as adolescentes nascidas raparigas são maioria nas consultas, o que alimenta os debates sobre os menores.

O que a ciência sabe, e não sabe

Nenhuma causa única. Os estudos de gémeos mostram uma parte hereditária; diferenças subtis foram observadas em algumas estruturas cerebrais e na exposição hormonal pré-natal; nenhum fator educativo foi demonstrado. Nem a persuasão nem as «terapias de conversão» mudam a identidade de género — o Conselho Federal de Psicologia brasileiro proíbe-as desde 1999 e 2018, e Portugal proibiu-as por lei em 2024. A OMS retirou a transidentidade das perturbações mentais na CID-11 (2019) e classificou-a como «incongruência de género» no capítulo da saúde sexual; o DSM-5 fala de «disforia de género» para o sofrimento que por vezes a acompanha.

Um pouco de história

Pessoas que viveram no outro género existem em todas as épocas e culturas — as hijras da Índia, as muxes do México, as fa'afafine de Samoa, as travestis do Brasil, cuja cultura própria, entre festa e perseguição, remonta ao século XIX. A medicina moderna começa em Berlim, no Instituto de Sexologia de Magnus Hirschfeld, onde a pintora dinamarquesa Lili Elbe se opera em 1930-31; Christine Jorgensen, operada na Dinamarca em 1952, faz a volta ao mundo; no Brasil, a modelo Roberta Close, capa de revistas nos anos oitenta e operada em Londres em 1989, lutou até 2005 para ver o seu registo alterado, e a primeira cirurgia autorizada no país data de 1998; em Portugal, a primeira cirurgia de reatribuição no SNS fez-se em Coimbra em 1995.

As crianças e os adolescentes

É o ponto mais discutido. Uma criança que exprime uma identidade de género diferente não «transiciona» do ponto de vista médico: a transição social não implica nenhum tratamento, e a maioria das crianças pré-púberes que exprimem esse sentimento não o conserva na adolescência. Na puberdade podem ser prescritos bloqueadores para «suspender» o desenvolvimento durante a reflexão, depois hormonas; as cirurgias reservam-se aos maiores (no Brasil, hormonas a partir dos 16 e cirurgia a partir dos 18, resolução CFM 2265/2019; em Portugal, protocolo hospitalar caso a caso). O Reino Unido proibiu os bloqueadores fora de ensaios, os países nórdicos limitaram-nos, os Países Baixos tiraram em 2026 um balanço favorável, 27 estados americanos proíbem qualquer tratamento a menores. Os profissionais concordam num ponto: um acompanhamento longo, multidisciplinar, sem pressa e sem recusa de princípio.

Violência e saúde mental

As pessoas trans sofrem taxas de violência, assédio, desemprego e tentativas de suicídio muito superiores à média, que baixam claramente com a aceitação familiar e o acesso aos cuidados. O Brasil é há mais de dez anos o país com mais assassínios de pessoas trans registados no mundo (ANTRA: entre 100 e 150 por ano); em Portugal, a APAV e a ILGA registam dezenas de crimes de ódio por ano. A página Os direitos segundo os países faz a volta.

As palavras

A secção Transexuais reúne as páginas sobre direitos, saúde, casal e encontros; a página As orientações sexuais trata da questão vizinha do desejo.

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