O casal é o primeiro afetado, e o último consultado
Uma dependência nunca se joga numa só cabeça. Reorganiza a vida de duas pessoas: o dinheiro, os horários, o sono, a sexualidade, a palavra. No entanto, os dispositivos de tratamento dirigem-se quase sempre à pessoa que consome, e o parceiro ou a parceira fica sozinho com uma situação que não escolheu.
O esquema é regular. Nos primeiros tempos, o outro minimiza, porque é o que se faz quando se ama. Depois compensa: cobre as ausências, paga as faturas, inventa desculpas junto dos filhos e do empregador. Por fim controla: conta as garrafas, revista, vigia. Cada uma destas três etapas parte de uma boa intenção e prolonga o problema.
O papel que se assume sem o ter querido
Os profissionais falam de condutas de proteção: tudo o que as pessoas próximas fazem para atenuar as consequências do consumo. Mentir à família, pagar uma dívida, telefonar ao empregador em vez do outro. Estes gestos aliviam o dia e retiram à pessoa que consome o que a poderia levar a mudar: o peso das suas próprias consequências.
Isso não quer dizer que se deva abandonar alguém. A linha está noutro sítio: continua-se a apoiar a pessoa, deixa-se de reparar os estragos do consumo. Concretamente: acompanhar a uma consulta, sim; pagar a multa, não. Ouvir, sim; mentir no lugar do outro, não.
Três frases que não servem para nada
«Se me amasses, paravas» — a dependência não é uma falta de amor, e esta frase acrescenta vergonha, que faz consumir mais. «É a última vez que te digo», repetido vinte vezes, já não é um limite mas um ritual. «Vou ajudar-te a controlar isso» transforma um parceiro em cuidador, um papel que nenhum casal suporta por muito tempo.
O que funciona: falar do comportamento, não da pessoa
As abordagens avaliadas junto das pessoas próximas convergem em três princípios simples.
- Escolher o momento. Não durante um consumo, não durante uma discussão. A manhã seguinte vale mais do que a própria noite.
- Descrever factos, não um carácter. «Chegaste às três da manhã e não te lembras» em vez de «és um alcoólico». O facto não se discute; o rótulo, sim.
- Pôr um limite que se vai cumprir. Um limite anunciado e não aplicado ensina exatamente o contrário do que queria dizer.
O reforço comunitário e a formação da família — muitas vezes designados pela sigla inglesa CRAFT — partem daí: em vez de esperar que a pessoa «bata no fundo», dão-se ferramentas às pessoas próximas. Os ensaios mostram que esta abordagem leva mais pessoas ao tratamento do que o confronto, e que melhora o estado da pessoa próxima mesmo quando quem consome não consulta.
Procurar ajuda para si, mesmo que o outro recuse
É o ponto mais contraintuitivo e o mais bem estabelecido: as pessoas próximas têm direito a um acompanhamento para elas mesmas, independentemente da pessoa que consome. As consultas especializadas em dependências recebem os familiares sozinhos, os grupos de entreajuda para famílias existem na maioria dos países, e a terapia de casal torna-se útil depois de o consumo estar estabilizado — não antes, porque uma dependência ativa ocupa todo o espaço da sessão.
Quando a questão passa a ser: partir ou ficar
Não existe uma boa resposta geral, e ninguém de fora tem de a dar. Três elementos mudam, no entanto, a natureza da questão. A presença de filhos, primeiro: a exposição duradoura ao conflito e à imprevisibilidade tem efeitos documentados, e é muitas vezes o que decide. A violência, depois: o álcool não a causa mas desinibe-a, e aí a segurança passa à frente do tratamento. O esgotamento, por fim: ficar quando já não se tem forças não salva ninguém, e uma separação não impede de acompanhar de outra maneira.
Uma coisa é certa: a recaída não anula os progressos. A maioria dos percursos conta várias, e o critério útil não é «recaiu?» mas «o que faz ele depois da recaída?».
